Sistemas móveis para imobilidade do corpo

Sistemas Móveis esteve em exposição no Coletivo Atelier Contágio, na mostra coletiva Urubu Rei (2018)
É uma instalação composta de cinco cadeiras com inscrições em seus assentos para realização de ações voltadas à interação com o ambiente. Um convite para que o público transite com a cadeira pelo local e ative sensações de presença, locomoção, movimento, sonoridades.

As situações, às vezes têm horários marcados, às vezes não têm, às vezes têm lugar certo, às vezes não têm. Não existe cronologia. Se existem planos, alguma coisa ou outra sempre será diferente. As situações incorporam o corpo ou o corpo aciona as situações? É necessário mover-se para saber. Mas o movimento é relativo, pode-se mover apenas ao olhar, ver, tocar, sentir. O que se sente com os movimentos é uma percepção mental. Então, imobilizo-me para mover-me mais.

Movo e sou movida por funções espaciais, por lampejos e memórias, por ficções e realidades, por sólidos e líquidos, por naturais e artificiais, por campos e cidades, por palavras e coisas, analogias de um corpo sem permanência, por respostas sem perguntas, por um punhado de letras que formam palavras e palavras que formam ações, pelas repetições e continuidades do real através da ficção, pelas construções imagéticas.

Me movo libidinosamente. Neste percurso, encontro coisas e situações sedutoras e deixo que se traduzam em mim, que sejam resultado e recompensa da minha interação e participação. Experimento o olhar, percebo os movimentos das coisas e suas cores e me questiono quais tipos de percepções elas estão tendo, será que são iguais às minhas? Experimento respirar, que sensação maravilhosa quando esse nada, esse vazio sem cor, nem textura, nem corpo entra em mim ou passa pela minha pele e me faz arrepiar! Experimento andar, pisar, o solo me acolhe, adapto-me à sua geologia, aos seus contornos. Experimento minha voz, que som é esse que ecoa da minha garganta?… que palavras são essas?… o que minha voz traduz?… qual meu timbre?… que melodia é essa? Experimento fechar os olhos e escutar o que está fora de mim, atordoada, percebo que as outras coisas (porque sou coisa também) falam e se movimentam, e seus movimentos produzem sons, ruídos, melodias. Experimento tocar, sinto as coisas, são matérias, têm texturas, são aveludadas, ásperas, macias, duras, moles, cortantes.

Experimento mover-me através de todos esses sentidos, dançar lentamente ou pular bruscamente, não importa, pois consigo senti-los mesmo permanecendo imóvel e os faço sobre este móvel imóvel, estático, objeto-extensão de corpos humanos, peça de mobília composta de assento individual, de encosto, quatro ou três pernas, com ou sem braços.