2023/2024
Objeto – caixa de madeira, fotografia, argila e resina
42x32x9,5cm
Exposto no 25º Festival do Instituto de Artes da Unicamp (FEIA). Fêmea Fábrica, Campinas, SP. Brasil
O presente trabalho “O canto do carcará”, 2023/2024 é um objeto composto por uma caixa de madeira que abriga uma escultura de esqueleto humano com cabeça de carcará. Ao lado da escultura há uma fotografia de um homem rural, deitado em posição de descanso, assim como a escultura.
Com esta obra, quero apontar a transformação do imaginário presente na música sertaneja atual sobre os interiores do Brasil, e o detrimento do eu lírico do trabalhador rural, retratado pela fotografia do homem caipira, e a ascensão do eu lírico do fazendeiro, retratado pelo crânio de carcará na escultura.
O caipira tinha na música, a forma de sua expressão, onde os contos e causos eram transmitidos oralmente e cantados. Estes contos cantados retratavam as dores e as belezas da vida no campo, o cansaço e o sofrimento, a tranquilidade e a contemplação. Falavam das montanhas e dos rios, da lua, das árvores. E o canto dos pássaros tinha um destaque especial.
Entretanto, mudanças na sociedade e nos modos de vida em relação a trabalho, produção e consumo que acompanharam o crescimento industrial, expressaram nas letras uma nostalgia sobre a vida rural. O eu lírico transitou entre uma pessoa rural e uma pessoa da cidade e foram trazidos temas urbanos, de consumo e de bens materiais.
Com o passar do tempo, o eu lírico deixa de ser definitivamente o trabalhador rural e passa a ser o fazendeiro. As músicas falam agora de ostentação, riquezas, consumo, terras, gado, carne e cerveja; produtos do agronegócio. Por trás do agronegócio, idealizado pela sociedade, há o uso de violência aberta e simbólica na expropriação de terras indígenas, ribeirinhas e sertanejas. A transformação da música caipira na música sertaneja atual demonstra uma apropriação e deturpação de uma cultura popular em prol de interesses particulares de uma classe dominante, que tem como intuito impor ideias e assim se reproduzir.





Exposição Eviscerar têmpera, transmutar nós. 25º Festival do Instituto de Artes da UNICAMP (FEIA 25). Fêmea Fábrica, Campinas, SP.