2026
A obra Inventário é composta por uma mesa que sustenta um pequeno móvel de madeira com compartimentos e aberturas, onde se abrigam elementos orgânicos como sementes e insetos, fragmentos textuais e imagens, esculturas em cerâmica fria e resina (mulher-pássaro e peixes). No nicho central, um livro de artista com a palavra Gente gravada na capa, reúne colagens com fotografias vernaculares, articulando relações entre arquivo e corpo, natureza e linguagem. Na parte superior, galhos secos de pessegueiro.
No interior e nas laterais do objeto, inserem-se fragmentos de Graciliano Ramos, em Vidas Secas e João Guimarães Rosa, em A Terceira Margem do Rio. O primeiro, associado às imagens das antigas fotografias, evoca um regime de escassez, silêncio, materialidade do cotidiano rural; o segundo, inserido no interior de uma semente “canoinha”, aponta para um espaço de suspensão desse ambiente rígido, escasso e silencioso, permitindo imaginar uma existência em estado de travessia contínua.
Busca-se construir a tensão entre o rígido e o fluido, a fixação e o deslocamento. Ao reunir vestígios orgânicos, textuais e objetuais, propõe um inventário para fabular a partir dos rearranjos daquilo que se tenta guardar, onde a memória se reorganiza continuamente em camadas, intervalos e rastros daquilo que permanece à beira do desaparecimento.






